sábado, 30 de maio de 2009

Comecei a freqüentar o cinema antes da hora do inicio da seção, ainda era um adolescente,
Fiz primeiramente amizade com o Rubens, o gerente, após com o Jipe, não com a intenção de ingressar gratuitamente no cinema, mas sim conhecer toda a maquinaria em detalhes. Quando não estava na escola ou em casa estudando, lá estava eu no cinema. Rubens gostava de pintar as suas placas com a propaganda dos filmes, na sala de espera, pois como as placas eram afixadas acima das portas de vidro e eram de grande tamanho, ficava mais fácil pintar ali mesmo. Para tanto pegavas os dois sofás pequenos servindo de cavalete e apoiava neles as placas e com uma ripinha redonda tendo em ambos os extremos uma pequena bola de pano enrolada. Para não sujar de tinta o papel ou tecido quando apoiava o pincel para pintar as letras, diretamente sem auxilio de um mísero lápis. As tintas ele mesmo as preparava, em um pequeno fogareiro elétrico derretia a cola de ossos, misturava com os corantes em pó e o resultado final era excelente. O mesmo acontecia com a cola de goma que era utilizada, ali vim a conhecer o segredo de se misturar soda cáustica a cola. Certa vez ele confeccionou um grande cartaz em madeira compensada, mesmo assim muito pesado. Nele pintou uns vinte nomes de filmes com os nomes dos os astros que atuavam, e as datas de exibição, e que foi afixado em um lote de terreno nas proximidades do cinema, e que contou com a minha colaboração para carregar e ajudar a pregar dito cujo imenso cartaz.
As primeiras vezes que o filme “PAIXÃO DE CRISTO” (nome em português) foi exibido nas sextas-feiras santa foram um verdadeiro Deus nos acudam, pois se formavam imensas filas, que eram guardadas por longas cordas. Que eram amarradas na porta de entrada do cinema e seguras por guardas-civis e por funcionários inclusive eu segurei a dita corda por diversos anos. E o grande problema desta exibição era que só havia uma cópia do filme.
O filme originalmente era mudo e em branco e preto, que foi posteriormente narrado em português, dirigido por Cecil B.de Mille denominado “King of Kings” de 1927. E sei que a referida cópia era de propriedade do Antoninho Morilha, dono do Cine Curitiba. E passava simultaneamente em três cinemas, um no centro da cidade; o Cine Curitiba, outro no bairro Parolim; Cine Oásis e por último no bairro do Portão no Cine Guarani. Aqui um fato pitoresco tanto o Morilha como o Manassés dono do Cine Oásis, eram funcionários da RVPSC Rede Ferroviária Federal como meu pai.
Certa manhã de verão; bem cedo, estando em férias escolares, resolvi ir ao Cine Guarani, só para passar o tempo. Lá chegando me deparei com um senhor querendo empurrar uma grande moto escadaria acima. Porém a moto era muito pesada e eram muitos os degraus, ele só não conseguiria empurra-la. Aí fui ao seu auxilio, chegando lá em cima começamos a conversar, papo vai papo vem, fiquei sabendo que ele era o Miro o Técnico eletrônico do Cinema e que ali estava para efetuar a troca das lanternas de projeção. Troca da tela, para tela de Cinemascope, acrescentar seis caixas de som laterais, três de cada lado da sala. Adaptação de lentes anamórficas para possibilitar passar filmes em Panavision ou Cinemascope. Quando chegaram os irmãos Francisco (Chico), Augusto e Ivan Taborda, que era operador de projeção, sendo Chico o novo gerente e Augusto era o novo operador de projeção, ambos eram de longa data meus amigos, pois ambos tinham sido guardas-civis do cinema. Naqueles tempos em todos os cinemas e teatros de Curitiba e acredito que em todo o Brasil, quem mantinha a ordem e os bons costumes era a corporação da Guarda Civil. Para ajudarem o Miro nas modificações, abriram o cinema, e entraram. Eu para não me intrometer fiquei meio de lado, quando o Miro me chamou, vem João, vem ver as novas lanternas, não estava acreditando, tanta sorte de uma só vez, conhecer as novas lanternas de projeção e participar de todas aquelas mudanças. Com este fato iniciou-se uma grande amizade, que durou até o desaparecimento do Miro.
Subimos, lá chegando o Miro que gostava de contar tudo o que ia fazer, como se eu fosse seu velho amigo e também técnico. Mostrou os projetores e começou a abrir as duas grandes caixas de madeira que continham as lanternas novinhas em folha, recém chegadas de São Paulo, eu também participei desta abertura, após a desmontagem das caixas, ficaram a mostra no chão da grande cabine as duas novas lanternas, eram enormes comparando com as que estavam em uso. Eram de cor cinza claro, a marca eu não tenho muita certeza, mas acho que era Triumph, certeza eu tenho que elas eram fabricadas em São Paulo. Possuíam avanço automático de eletrodos e eram dotados de um espelho parabólico com diâmetro de 16 polegadas e duas tampas que se abriam de ambos os lados das lanternas, em sentido para cima. Se bem que isto não era mais modernização, pois naquela época já, estavam em uso às lanternas com lâmpadas de xenon, que proporcionavam muito mais luminosidade e com uma grande economia de energia elétrica. As pequenas lanternas antigas em uso para ficarem com os seus eixos alinhados com a objetiva. Usavam grandes calços, que eram 2 pedaços de viga de pinho medindo aproximadamente 5x5 polegadas, pintadas de preto. Que eram colocadas transversalmente no chassi dos projetores, com as novas lanternas, não mais foram utilizados os grandes calços. Após a fixação das lanternas, o que deu trabalho foi a adaptação das chaminés. Após, foram feitos 2 furos com diâmetro de 12 milímetros um em cima e outro em baixo dos pés que eram de ferro fundido dos projetores que serviu para a passagem dos cabos blindados dos novos pré-amplificadores que foram construídos pelo próprio técnico Miro.

1 comentários:

  1. Esqueci de mencionar que o filme também passava no Cine Marajó lá no Seminário.

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